Até onde um homem vai em defesa de uma ideologia?


Até onde um homem vai em defesa de uma ideologia?
Crime e Castigo, de Dostoiévski, conta a aflição de um homem que resolve matar em nome de um “bem maior”. Louco ou revolucionário?
Acredito que eu tenha encontrado a melhor aplicação existente para a máxima “não concordo com seus argumentos, mas os entendo” em Raskólnikov, personagem de Crime e Castigo, do célebre Dostoiévski. Foi com muita animação e expectativa que comecei a ler esse livro e devo confessar: ele não me decepcionou em nada.


Raskólnikov é um estudante de direito, que largou a faculdade por falta de recursos, e mora num quarto imundo, que dá a ele margem a todo tipo de pensamento. A nossa personagem principal acalentava uma teoria própria, a de que o mundo era dividido entre homens ordinários e homens extraordinários. Àqueles, que viviam uma vida sem grandes acontecimentos e não se preocupavam muito com o mundo ao seu redor, a lei se aplicava rigorosamente; a estes, entretanto, desde que com um propósito em mente, tudo seria permitido. Não existiam leis, regras ou obstáculos para os homens extraordinários. Tendo-se na mais alta estima e acreditando ser um homem extraordinário, Raskólnikov mata a machadadas uma velha usurária, a qual ele chamava de “piolho” (alguém que não acrescentava nada à humanidade, muito pelo contrário: era um parasita e deveria ser esmagado, tal qual fazemos com piolhos), e sua irmã, uma boa mulher, que estava no lugar errado na hora errada.
Todo o desenrolar do livro pauta-se sobre esse acontecimento. Raskólnikov, que sempre achou que tivesse uma inteligência superior à de qualquer outro homem, começa a se comprometer em conversas e a dizer mais do que deveria. Ao mesmo tempo que vai construindo sua própria acusação, tenta a todo custo se livrar dela. Muitas vezes, na verdade, a impressão que ele deixa é a de um louco. O desvario que toma conta dele após o crime, que o faz delirar e desmaiar, não é o de alguém assolado pela culpa, entretanto. Raskólnikov, ao matar a senhora usurária, não o fez para ficar com o seu dinheiro, mas sim para dar o primeiro passo, para começar algo maior. Ele inspirava-se em Napoleão e ao ver-se ficar preso numa intricada rede de suspeitas as quais, na sua maioria, ele mesmo ajudara a construir, a loucura vem porque ele percebe algo: talvez ele não seja um homem extraordinário. Talvez ele não consiga sequer subir o primeiro degrau da escada da glória sem ser preso pela polícia russa.
Eu entendo perfeitamente o pensamento de Raskólnikov, apesar de repudiá-lo. Sua irmã estava prestes a se casar com um homem o qual ela não amava apenas para livrar a família da miséria. Enquanto isso, ele assiste à velha senhora razinza e má cobrar até o último tostão dos seus devedores. E foi aí que veio o pensamento de matar. Napoleão não tinha matado e, àquela época, não era visto por alguns como herói? Não tinha bustos expostos? Admiradores aos montes? Raskólnikov queria ser um Napoleão, mas ele tinha de começar a pôr sua ideologia em prática de algum jeito. Quem julga se uma pessoa como ele, nas suas circunstâncias, é má? Por outro lado, quem ele pensa que é para decidir quem vive ou quem morre?

O livro vale sua leitura por diversos aspectos: as análises psicológicas são excepcionais; as perguntas que surgem do enredo são tantas e tão complexas que dá para pensar sobre elas durante uma vida; o autor, muito inteligentemente, também dá espaço às histórias paralelas ao dilema de Raskólnikov e elas não deixam a desejar. E o final do livro deixa qualquer um boquiaberto com a reviravolta que acontece em três páginas. Crime e Castigo é, com certeza, uma das melhores obras que já li na vida. Recomendo de olhos fechados tranquilamente.

                                                                                                   Luana Natália, 3º ano, ensino médio

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